Trocar x compartilhar - A ética do amor


Seria justo cobrar o amor de alguém que não tem como oferecer o esperado em troca?

Seria ético querer algo em troca do amor que damos numa relação amorosa?

Como medir o quanto seria dar e receber de forma equilibrada?

O amor “romântico” se deleita no impossível, no infinito e no trágico. Como no livro Amor em tempos do cólera de Gabriel Garcia Marquéz, que tão bem narra uma estória de amor e explicita em que (des)medida o amor pode se enveredar.

Num outro patamar a poesia navega do visceral ao etéreo. Sem qualquer pudor ou limite ela culmina no êxtase místico dos grandes santos e sábios da humanidade que transcendem a razão e a lógica e se entregam ao absoluto numa perfeita comunhão.

Tantos percalços assolam o tortuoso caminho em direção ao desvendar do amor. Tudo se camufla de amor e ele próprio, naufraga desapercebidamente num mar de ilusões. Na urdidura da vida por onde as tramas tecem os encontros e desencontros raramente um ser suplanta o emaranhado de sentimentos tingidos pela ignorância humana. Apego, orgulho, egoísmo, ganancia e vingança, estão entre tantas outras fraquezas, que maculam as relações tornando-as desumanas. Ou seria mais correto dizer, lamentavelmente, tão humanas?

E o que nos resta então almejar do amor pungente, ou seria paixão? Que brota sorrateiro e repentino? Que sem jeito ao se expressar se desassossega, exagera, perde a linha, o rumo, a (paz)ciência e enlouquece no labirinto cruel do desamor. Ao ser incompreendido, rejeitado e abandonado, quem não busca num desespero velado um manual qualquer, um post, um filme, livro, panfleto, um bilhete de papagaio de praça, numa frase de biscoito chinês, encontrar ajuda, um socorro ou um norte para poder navegar até o porto seguro da compreensão e da solitude. Beber da fonte da compaixão e ser agraciado pela benção que é de fato perdoar não é tão corriqueiro quanto os adeptos do auto sugestionamento e técnicas esotéricas querem se doutrinar a acreditar.

No caldeirão da história, a ética e o profundo significado do amor se perderam em meio as múltiplas referencias religiosas, filosóficas e literárias. Muitas delas inclusive temperadas por crenças limitantes, preceitos e preconceitos que na prática estão bem distantes da união, humildade e da entrega autênticas. Cozidas pelo calor de modismos, ideologias efêmeras fazem com que os nobres ingredientes do amor evaporem ou sejam descaracterizados, limitando a poucos saborear sua verdadeira essência.

Ensaiamos amar enquanto ainda contabilizamos ganhos e perdas, dar e receber, perdoar e ser perdoado, compreender e ser compreendido. Mas enquanto uns passam a vida lutando contra as oscilações que surgem ciclicamente, outros abraçam a vida e as relações por inteiro com corajosa aceitação. A palheta que colore o universo é que dá os contrastes e matizes à aventura de desvendar a grandiosidade e profundidade do que pode ser amar de verdade uns aos outros.

Assim desnudos, quem acorda do sonho da separação, enxerga o singelo e o erudito, a brisa e a tempestade, o desfrute e o desapego, como um só fluxo contínuo de manifestações intercaladas das infinitas facetas do Divino em nossas vidas. Caminhar em direção à fonte inesgotável de amor nos possibilita caminhar ao lado de alguém pela vida afora respeitando sua liberdade de oscilar e de, inclusive, torcer para juntos de fato cada um se encontrar do seu jeito e ritmo. Compartilhar a existência com alguém de fato não é uma barganha de mercadores, mas sim um laboratório para realizar a alquimia da alma.

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