DHARMA, PROPÓSITO E CONSCIÊNCIA


DHARMA, PROPÓSITO E CONSCIÊNCIA

Uma visão Vêdica e integrativa da vida

"Quando uma pessoa nasce, nasce simultaneamente uma dívida com os deuses, com os sábios, com os ancestrais e com a humanidade" Para compreender o porquê disso é necessário mergulhar num campo pouco explorado e distante das praias rasas por onde a mente condicionada circula e se entretém. Requer ter uma visão mais realista sobre o corpo de conhecimentos por traz da palavra “Dharma” que, a grosso modo, tem a ver com as leis que governam nossa existência e funcionam como a coluna dorsal que sustenta e integra o corpo a alma e o espírito.


Num sentido mais amplo, ir de encontro ao nosso destino humano passa, necessariamente, por reconhecer e honrar nosso propósito como indivíduos em aperfeiçoamento. Estamos em trânsito, e embora alguns encarem nossa breve passagem pela Terra como um passeio, o sentido na realidade é de transição. Transição de uma condição instintiva para outra que integre virtudes ao kit sobrevivência instalado em nossa fisiologia animal.

Nesse processo de evolução da consciência, é inevitável chegar num ponto em que por mais interessante ou sofrido que seja o “passeio”, percebemos um certo padrão repetitivo nos aprisionando. Após vidas e vidas, finalmente temos um estalo e, já cansados, decidimos parar de ficar rodando em círculos como se estivéssemos num carrossel.


Afinal, quando nos percebermos numa prisão é natural termos um ímpeto de nos libertar. Mas antes de sair do parque de diversões em que transformamos nossa preciosa vida humana, temos que fechar as contas e, dependendo do quanto nos enredamos na brincadeira, elas podem ter ficado bem altas. É e precisamente nesse momento crucial em que decidimos caminhar em direção a saída do mar de ignorância que nos embala o cotidiano que somos mais testados.


É comum se delongar um pouquinho mais, ou até mesmo nos esquecer onde a saída fica, afinal passamos a vida, ou vidas, nesse parque de diversões. Nossa ignorância atrelada aos nossos 5 sentidos nos mantém reféns dos encantos do mundo com seus brinquedos hightech. Demoramos para nos cansarmos e desapegarmos desses prazeres efêmeros e batermos em retirada de forma resoluta.


Os Mestres, Santos e Rishis que não eram nada bobos e, já prevendo a situação, deixaram tratados e dicas em diversas escrituras sagradas para que as futuras gerações não se perdessem no caminho de volta para casa. Afinal, sair dessa trilha conhecida, dos vícios adquiridos, e desse carrossel de onde só se vê uma porção ínfima da realidade, exige força de vontade, conhecimento, paciência e fé.


É preciso adquirir autoconhecimento, ter integridade de propósito e compreender que há regras para se sair desse jogo em que as cartas marcadas são as mazelas humanas. E não dá para “roubar”, pois o objetivo final é nos tornarmos verdadeiramente livres de toda ignorância e autoengano. Nesse jogo da vida o manual é o Dharma – ou para quem preferir o Sanathana Dharma – Sabedoria eterna.


Mas é mesmo incrível como o Universo, a Natureza e/ou Deus, são


elegantes! Sendo assim, é natural que para comungarmos com eles seja preciso também termos um refinamento ético traduzido em algo prático. Isso, tanto para vivermos quanto para morrermos conscientemente. Em outras palavras, para entrarmos no fluxo maior da existência.


Segundo os Vedas, as antigas escrituras espirituais da Índia, “Não há nada mais elevado que o Dharma”; o qual, por sua vez, opera em quatro níveis:

  1. Rita - O dharma universal;

  2. Varna - O dharma social;

  3. Ashrama - O dharma humano;

  4. Swadharma - O dharma pessoal.

O mapa astral védico estuda nossa constituição de base e, entre outras coisas, o que trouxemos na bagagem para acessarmos nosso dharma pessoal. Dentro do ashrama dharma, ou dharma humano, também existem outros quatro estágios, ou subdivisões, relacionados as quatro finalidades da busca humana:

  1. Dharma ... cumprimento ético da lei pessoal

  2. Artha ... legítima aquisição de recursos pessoais

  3. Kama ... satisfação legítima dos desejos

  4. Moksha ... libertação e emancipação deste mundo

Para se ter uma vida plena é necessário integrar esses 4 estágios de forma gradual e harmônica. Infelizmente, o mal-uso do livre arbítrio nos permite escolher não nos alinharmos com nosso propósito pessoal e agirmos de forma não ética e desconectada de nossa verdadeira essência. Essa oposição ao dharma é chamada de adharma e significa ir contra a lei divina que sustenta a natureza e que traz o tão almejado equilíbrio interno e externo. O reflexo disso é sofrimento e desestruturação pessoal e coletiva. Isso porque, partindo do pressuposto de que tudo está interligado, a inconsciência individual afeta toda a sociedade.


É raro um ser humano ter acesso ao seu propósito pessoal de acordo com o rita, ou dharma universal, uma vez que somente sábios e deuses têm essa consciência. Mas, apesar dos enúmeros obstáculos, um indivíduo pode com disciplina, estudo e autoconhecimento, gradualmente se tornar consciente de seu propósito pessoal de acordo com o varna dharma, ou dharma social, e do ashrama dharma, ou dharma humano.


Para aferir de forma geral onde uma pessoa está nesse processo evolutivo da consciencia, identificar se ela conhece ou não o propósito de suas aquisições, materiais, intelectuais, afetivas, espirituais etc... Se estiver em desacordo com o dharma, seja o dharma social ou humano, então ela adquiriu e acumulou o que possui em um profundo estado de ignorância. Essa pessoa se desviou do caminho em direção ao seu real propósito pessoal. Propósito este, vale esclarecer, que não é pautado pelas noções correntes de sucesso, prosperidade, abundancia ou até mesmo de espiritualidade.


Ao identificarmos um descompasso com o fluxo da vida, nos foi dada a condição de reflexão para desenvolvermos o tão necessário discernimento. Portanto, ao percebermos que saímos do caminho em direção a uma integração interna e externa, só cabe a nós mesmo retornar a ele. Trilhar o caminho do Dharma é uma prática de vida e um serviço ao equilíbrio do todo.

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